Arquivo do mês: fevereiro 2012

A arte da autoimagem

Uma das condições de ser humano é viver constantemente criando um roteiro baseado nas nossas experiências nos quais somos protagonistas e a única audiência. Criamos histórias para nós mesmos, para lidar com a falta de uma resposta para aquela pergunta perturbadora; “por quê estamos aqui mesmo, hein?”

Somos, então, nas nossas cabeças grandes aventureiros, vítimas das maiores tragédias imagináveis, protagonistas das comédias mais engraçadas. Usamos e editamos estas histórias para servir melhor a nós mesmos, justificarmos nossos erros e gostarmos um pouco mais de quem somos.

E, temos uma tendência nata a nos auto-rotular. Eu sou assim, assado. Quando na verdade, a grande maioria dos nossos rótulos não sobrevivem a uma mudança de referencial.

Acredito, em toda a minha ignorância e imaturidade, que o processo de amadurecimento acontece quando descobrimos que não nos conhecemos completamente. E que quem somos hoje, não necessariamente representa quem nós fomos ontem, ou seremos amanhã, mesmo mantendo o mesmo RG, CPF e título eleitoral.

E eu vejo pessoas se auto-rotulando, tentando criar, ou forçar mudanças em suas identidades ou aplicar conceitos e qualidades à sua pessoa. Tentando se convencer de que são e agem de determinada forma, ou usando os rótulos para justificar suas ações e suas falhas. Quando na verdade, de verdade, são apenas pessoas normais, que se parassem para pensar um pouco, talvez descobrissem o quanto esse comportamento de se auto-rotular é desnecessário e irrelevante.

Mas, ao ver os erros alheios, estou procurando aprender a reconhecer os meus erros, e não me rotular. Sei que é impossível fazê-lo, ainda mais na nossa sociedade que demanda explicações concretas para esse grande substantivo abstrato que chamamos de personalidade, mas estou tentando ao mesmo não criar rótulos para mim mesmo. E rir, quando digo uma lista de rótulos pra quem precisa deles para ter uma referência ou idéia de quem eu sou.

E, envelhecer também significa parar de se importar tanto com o rótulo, e passar a se preocupar cada vez mais com a data de validade.

Superficialmente,

Guilherme.

PS. Provavelmente uma galera não vai pensar no que leu e vai apenas me rotular de “gente, que cara louco”, em 5, 4, 3, 2…. Mas da última vez que fui rotulado assim veio em sequência um “mas é uma graça” de uma moça interessada e interessante, então acho válido.

O valor do silêncio

Outro dia li um comentário irônico sobre produção de conteúdo, ao invés de republicação de conteúdo e idéias alheias. Não vou nem entrar no conceito filosóficoZzzzz de que é impossível criar algo completamente novo, apenas juntar referências diferentes para compor algo, mas a grande ironia é que a pessoa em questão apenas republica o que lhe é dado nesse grande mar de palavras ao vento que se chama internet. E se acha o máximo por isso.

Na verdade nesse tempo prolixo em que palavras são gastas sem qualquer sentido ou razão (eu sou super culpado disso, inclusive, antes que pensem que estou sendo hipócrita), chega The Artist, um filme em preto e branco, mudo, protagonizado por atores semi-desconhecidos e melhor que muita produção hollywoodiana cheia de estrelas por aí (malzaê George Clooney).

E levou o Oscar, veja só. E muita gente que se guia por essa referência vai correr atrás do filme apenas por isso e dizer que é ótimo. E se esquecer, ou não perceber, que a história do filme é um tanto quanto irônica. Porque isso não é dito assim de mão beijada. Não é falado, não é escrito, nem legendado.

Não sou eu quem vou dizer a grande ironia, é algo que quem assistir deve perceber ou não por si só. E passar a entender talvez, que as palavras, embora bonitas, poderosas e tantas vezes importantes, nem sempre são necessárias.

Assim como a opinião alheia, e o sucesso nem sempre são indicativos do valor de algum trabalho. Opa, acabei falando demais e entregando o jogo. Talvez precise aprender mais com o filme e ficar mais quieto daqui pra frente.

Silenciosamente, só que ao contrário,

Guilherme.

PS. Caso vocês não tenham percebido, isso foi uma crítica. A vocês. E a mim mesmo que não calo a boca, nem os dedos, e tenho ouvidos muito dados.

De mágoas alheias

E enquanto ele caminhava, saboreava nos seus passos doloridos aquele gosto estranho que se tem de quando não sabemos como nos sentir quando a morte de alguém a quem se odeia nos é anunciada. Entre um misto de alívio, vergonha e raiva de si mesmo por deixar que a sina de alguém que não merece nada além de esquecimento nos afeta de tal forma.

E fica toda essa monstruosidade intoxicando o ar, ao menos até o momento em que se é esquecida.

E a morte de alguns neurônios que guardam essas memórias agridoces de nossos inimigos, não são choradas, mas celebradas. Porque de vez em quando é mais do que confortável esquecer de quem fomos ou somos.

Mestre na arte e ofício de ser difícil,

Guilherme.

Cooking with Winspear #9: Tabule de Cuscuz

Também conhecido como: Tabouleh de Couscous ou Gororoba gostosa, esse prato rápido, simples e refrescante ficou com uma aparência péssima, mas um gosto ótimo.

Ingredientes:

1 xícara de couscous marroquino;

8 – 10 tomates cereja cortados em 4;

1/2 pepino picado;

1 cebola pequena picada;

hortelã picada;

salsinha picada;

1/2 xicara de azeite;

1 colher de vinagre;

sal e pimenta branca a gosto.

 Modo de Preparo:

Coloque o couscous num recipiente e junte 3 xícaras de água fervente. Tampe e deixe absorver a água por 5 minutos. Escorra e reserve. Em uma vasilha, junte todos os ingredientes misturando bem, em seguida acrescente o couscous. Leve para gelar antes de servir.

The Switch

E o filme dessa semana foi “The Switch” com o cara de Arrested Development e a Rachel de Friends protagonizando a comédia leve. É um desses roteiros simples em que é possível prever o final logo no começo da trama, mas que serviu pra passar o tempo.

E o filme me ganhou, não por ser engraçado, ou por não ser previsível, mas por retratar bem o conceito de família e toda a complicação que envolve essa organização natural muitas vezes não muito bem organizadas socialmente.

Outro dia estava conversando sobre “Precisamos falar sobre Kevin” e sobre como é aterrorizante a possibilidade de se ter um filho bizarro e não gostar do próprio filho. Mas The Switch, em toda a sua simplicidade mostra o outro lado: a possibilidade de se entender, reconhecer e apreciar os defeitos dos seus filhos.

Porque convenhamos que é exatamente por aí que funciona quando gostamos de verdade de alguém.

Não é um filme excelente que todo mundo precisa ver, nem um filme que todo mundo gostaria de ver, mas certamente é o filme que eu precisava ver essa semana. Até porque de drama ruim já basta esse blog.

Defeituosamente,

Guilherme.

The ballad of Jack and Irina

Talvez o fundamento principal de uma relação sadia seja a confiança, ter certeza de que aquelas pessoas de quem gostamos estarão ali quando mais precisarmos, e de que tem a melhor das intenções quando se relacionam conosco: a nossa felicidade.

Balela utópica talvez, mas vejo muitas pessoas que se encaixam nesse modelo poliana de se relacionar com a sua família. Mas não sei o que esperar de Jack e Irina. Porque mesmo que eu imagine que eles em suas cabeças estejam planejando algo mirabolante que em teoria fará as coisas parecerem mais fáceis, normalmente é exatamente o contrário que acontece.

E eu volto para minha vida de porta-retratos vazios e momentos em que eles não estavam lá. Porque mesmo se estivessem, de uma forma ou de outra era como se não estivessem.

Enfim, minha desimportância e essa expectativa de não esperar nada deles de vez em quando faz com que pequenas atitudes me surpreendam. São momentos em que eu realmente me sinto parte de algo, e que essa conexão que possuímos não é apenas genética.

Infelizmente são raros esses momentos. Mas talvez, por isso mesmo, sejam tão preciosos. E sigo então nessa desconfiança desconfortável me surpreendendo com pequenos gestos com grandes significados.

Genealógicamente,

Guilherme.

Entre o passado, o presente e o futuro do pretérito

Entre cervejas eu me vi encarando o passado que eu fingi muito bem não reconhecer. Me sinto desconfortável quando vejo semi-conhecidos que não aprecio, e não cumprimento, como se tivesse esquecido completamente da existência daquela pessoa. Mas seria desconfortável e desnecessário dizer “oi” apenas para perceber que eu também não sou reconhecido.

A verdade é que se fosse outra pessoa da mesma época, 2006, eu teria dito oi facilmente, mesmo se não fosse reconhecido, com um sorriso no rosto até. Porque não foi ruim, apesar de difícil, a época que eu dividi com essas pessoas afinal. Especialmente, porque passou.

Passou, para mim, porque para quem eu reconheci, aquele universo ainda continua diariamente, como se eu tivesse vivido uma vida paralela, enquanto o tempo ali tivesse parado. Não que minha vida paralela tenha sido apenas flores, pelo contrário, e nem que ficar no mesmo universo seja completamente ruim, afinal é muito confortável para muita gente. Mas eu estava feliz, de não estar mais naquele universo, daquela forma. Enxerguei meu progresso, mesmo que de forma tão bipolar e inconstante.

O mais difícil no entanto, era encarar  do outro lado da sala um tempo verbal que não veio a se tornar presente. Vivenciar na minha cara dura tudo que poderia ter sido, mas que não foi, e nem por falta de esforço meu.

De ver tudo que poderia ter sido, de como as coisas poderiam ser fáceis, se tivessem acontecido de forma diferente, se eu fosse um cara diferente… Aqueles velhos “what if’s” que não levam a lugar nenhum e parecem muitas vezes tão impossíveis, a não ser quando alguém que conquistou tudo mostra pra você que, oi, não só foi possível, como simplesmente aconteceu quase que sem esforço algum.

E eu me vejo nessa situação não tão ruim assim, mas longe de ser o que eu queria. E permanece a tristeza de saber que determinados objetivos que eu tive não serão realizados. Ao menos, posso ficar feliz ao encarar o passado contrastando com o pouco que eu consegui caminhar, e talvez por isso focar nos pontos positivos daquele momento que passou.  E posso sorrir, de verdade, ao escutar as histórias e vitórias alheias, porque já que não posso ter as minhas nesse momento, ao menos posso ficar feliz por ter pessoas fantásticas dividindo um pouco da sua felicidade, e suas conquistas comigo.

Afinal, nos piores momentos da minha vida, nem isso eu tive.

Bittersweet, 

Guilherme.

Toda nudez será compartilhada

E, essa semana teve uma pobre jornalista que perdeu seu celular e teve fotos íntimas suas postadas na internet. Os amigos dela, em retaliação fizeram um blog, onde eles tiram a roupa e postam fotos nuas.

Em 2012 e a galera ainda se choca com pessoas que tiram fotos peladas. Não deveria ser essa polêmica toda.

Estas pessoas aparentemente se esquecem que vivemos no mundo onde em milhares de obras de arte a nudez é retratada de forma bela, onde protestantes tiram a roupa nas ruas quase todo mês, e onde famílias inteiras frequentam praia de nudismo de forma natural.

Digo isso, mas fecho as cortinas quando vou trocar de roupa, com vergonha dos meus vizinhos.

Contraditóriamente,

Guilherme.

 

A guide for recognizing yourself

“A Guide to recognizing your saints” conta a história de um cara que cresceu na década de 80 em Astoria, um bairro pobre de Nova York, e como os relacionamentos que ele teve moldaram sua história.

Não achei que eu fosse gostar tanto do filme, mas aos poucos a trama foi me pegando de jeito, e apesar do casting todo errado do Shia Le Bouf (sei lá como se escreve), como versão mais nova do Robert Downey Jr, o filme é excelente.

Toda uma identificação em como você pode tirar as pessoas das raízes, mas não pode tirar as raízes das pessoas. No fim, somos o que somos, enquanto somos, acho eu.

“But in the end is like I said, I left everything and everyone, but no one has ever left me”

Filme da minha vida número 327,

Guilherme.

Dos artigos que eu li na Men’s Health

Tenho um preconceito absurdo contra a revista Men’s Health. Uma coisa não li e já não gostei que muita gente tem com muitos autores por aí. Mas outro dia, sem perceber eu cliquei no link que uma menina inteligente tinha disponibilizado numa rede social e quando percebi tinha lido três artigos. E três artigos que não mudaram minha vida, mas não posso dizer que eram ruins.

Um deles discorria sobre o narcisismo e suas duas vertentes:

“…there are two types of narcissists. Grandiose narcissists seek out admiration and have fantasies of success and power—and a hefty sense of entitlement. (Example: Kanye West.) Vulnerable narcissists, on the other hand, look for approval and validation from others to up their self-esteem”.

Parei pra pensar e realmente acho que é possível enquadrar todo mundo que eu conheço nas descrições acima. Grande parte da nossa necessidade natural humana de se relacionar envolve essa necessidade de ser aceito, a diferença é a quantidade de pessoas pelas quais queremos ser aceitos, e como queremos essa aceitação.

Nesse momento eu só quero que uma mulher chamada Julie aceite meus documentos enviados para um processo que não deveria ser longo logo, pra que eu possa aceitar as minhas férias e ganhar abracinhos do meu Rio de Janeiro.

Reflexivamente,

Guilherme.

http://meusorrisodogato.blogspot.com/